terça-feira, 17 de março de 2015

A MÁSCARA CAIU

Nas manifestações de rua do domingo 15 de março uma frase, repetida em várias capitais nas faixas levantadas pela multidão, fez doer o meu coração: “ INTERVENÇÃO MILITAR,  JÁ!”. Foi saudade do tempo da ditatura militar? Acho que não chegou a tanta burrice, mas  deixou claro que o projeto defendido  é pelo domínio da direita, a marginalização dos pobres, contra o fortalecimento  político e econômico das classes subalternas. Reveladora é também a ausência de frases e de gritos pela defesa da Petrobrás, como, ao contrário, tinha acontecido nas manifestações  sindicais da sexta feira anterior. Isso esconde o desejo de ver a Petrobrás privatizada, como aconteceu com a Vale no tempo de F.E.Cardoso. O símbolo da rejeição ficou com a pessoa da Dilma (“fora Dilma!”), mas  a luta da direita não é contra uma pessoa e sim contra o projeto de uma mudança política e social em favor dos pobres. Dilma é certamente mais limpa do que todos os  outros presidentes da era democrática (Sarney, F.E.Cardoso e Lula), mas carrega em si, simbolicamente, todo o peso da corrupção e, agora, também do atual ajuste econômico. O que ficou, então, de positivo, nas manifestações do dia 15? Ficou algo que já sabíamos: a condenação do sistema político e seus representantes e, sobretudo, a condenação da conduta suja dos administradores de todos os campos. Temos que acrescentar somente uma coisa: atenção a não condenar a corrupção somente no andar de cima, porque a Lei de Gerson (tirar vantagem de tudo) é infiltrada também no andar de baixo, incluindo todos nós.

sergiobernardoni@gmail.com

sexta-feira, 13 de março de 2015

A CONSCIÊNCIA PODE DOER.


Num destes dias fui à lanchonete para comer um salgado com minha esposa. Foram dois salgados e dois cafés. Quando fui pagar percebi  que  a atendente tinha marcado  dois cafés e somente um salgado. Eu vi o erro, pouco depois, e quando o caixa me perguntou se era isso mesmo, falei que sim e paguei. Foi distração?  Foi esperteza? Foi ladroagem? Não sei, talvez um pouco de tudo me ajudou a aplicar a “lei de Gerson: tirar vantagem”. Mas quando voltei em casa a consciência me doeu tanto que não consegui dormir direito, até achar uma solução para reparar o meu erro: voltaria na mesma lanchonete no outro dia e no papel da despesa eu mesmo marcaria “mais um salgado”, sem telo comido, pagando assim o do dia anterior, que eu tinha comido sem pagar. E é o que fiz no dia seguinte. Este tipo de “consciência que dói” é herança da minha educação católica que eu agradeço do profundo do coração. Parece que nem sempre a consciência dói, mesmo quando não se trate de dois ou três reais, mas de milhões, como se vê acontecendo no escândalo da Petrobrás. Pode-se misturar religião com corrupção de menor ou maior importância, sem a consciência doer. E isso pode atingir nós todos, gente comum, se não tiver a delicadeza de consciência para perceber que o que não é nosso “não é nosso”, e se não  aprender a viver com justiça e com a extrema atenção a não prejudicar o próximo. Jesus no Evangelho diz que se na hora de orar ou fazer uma oferta no altar você lembrar que tem alguma dívida com o próximo: “deixa lá a tua oferta e vã reparar primeiro o mal feito ao irmão”(Mt.5,23).

quinta-feira, 5 de março de 2015

AS SOBRAS


Hoje, 05 de Março 2015,três mil famílias do Movimento Sem Terra (MST),começam a deixar, por ordem judicial,  sob os olhos da polícia, a fazenda Santa Mônica, do senador Eunício de Oliveira (PMDB). Eis aqui a crônica do jornal O Popular: “Fim da tarde. Por do sol à vista. Da carroceria de um caminhão, famílias descarregam camas e roupas numa área à beira de BR-060,na altura do km 47, em Alexânia, na região leste de Goiás  É neste local que  elas começam a instalar um novo acampamento, depois de serem retiradas de uma parte da Fazenda Santa Mônica de propriedade do Senador Eunício de Oliveira (PMDB-Ceará), ocupada há cinco meses”.  É terrível o que está acontecendo em nome da lei. A fazenda santa Mônica tem 20 mil hectares, e o senador é dono de outras várias fazendas. Os sem terra não possuem nada e só querem um pedacinho de chão para sustentar a família. A justiça do homem não é a justiça de Deus, mas é por esta  que o senador será julgado. Para entender o tamanho da “injustiça” cometida pela justiça humana, vamos ler no Evangelho de Lucas a parábola do pobre Lázaro:-“  Havia um homem um homem rico que se vestia de púrpura e linho fino e dava banquete todos os dias. E um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, que estava caído à porta do rico. Ele queria matar a fome com as sobras que caiam da mesa do rico. E ainda vinham os cachorros lamber-lhe as feridas. Aconteceu que o pobre morreu, e os anjos om levaram para junto de Abraão. Morreu também o rico e foi enterrado. No inferno em meio aos tormentos, o rico levantou os olhos e viu de longe Abraão, com Lázaro a seu lado. Então o rico gritou:” Pai Abraão tem pena de mim! Manda Lázaro molhar a ponta do dedo para me refrescar  a língua porque este fogo me atormenta”. Mas Abraão respondeu: “Lembre-se, filho: você  recebeu seus bens durante a  vida, enquanto Lázaro recebeu males. Agora porém, ele encontra consolo aqui, e você é atormentado. Além disso há um grande abismo entre nós: por mais que alguém desejasse, nunca poderia passar daqui para junto de vocês, nem daí poderiam atravessar até nós” (Lucas 16.19-26). Para o senador sobra terra e dinheiro, enquanto os lavradores sem terra não recebem nem as migalhas  das suas riquezas. Quem defenderá o senador, quando daqui há poucos anos, se apresentará diante de Deus?

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

A melhor Idade?



Até os meus oitenta anos eu me sentia, não digo jovem, mas cheio de forças e de sonhos. Agora com oitenta e cinco anos e depois de algumas doenças graves me percebo como idoso, velho.  Não acabado, sem esperança, mas com um panorama de vida mais limitado, com uma preocupação principal, que toma o tempo todo: a preocupação pela saúde, o cuidado físico. No médico quase todas as semanas, a mesa empilhada de caixinhas de remédios, as longas sessões de espera nos ambulatórios e uma fraqueza corporal que influencia também o espírito, tirando aquela vontade de construir novidades e melhorar o mundo. Estou percebendo que o número notável de idosos, que aumenta a cada dia, traz problemas  sociais e não somente individuais. É desejável  que se viva longos anos e que isto aconteça com todo mundo, mas com isso algo muda na vida pessoal e na sociedade, inexoravelmente.  Nós dizemos que o idoso se encontra na “melhor idade”. É verdade? Podemos dizer que sim: é uma idade mais calma, com uma visão do mundo mais realista, uma idade de reflexão e contemplação, de benevolência e misericórdia para com os outros, com um maior respeito por parte da sociedade (o idoso, ao menos teoricamente, é sempre “preferencial”). Mas isso tudo é mais complicado quando entra na vida o cansaço e sobre tudo as doenças. Uma comparação não muito bonita é aquela de lidar como com um carro velho: todo dia apresenta um defeito, se  conserta uma peça e estraga a outra. A reação humana é algumas vezes a desesperança e a depressão. Nesta situação qual é o caminho da salvação? Eu não diria que é o único, mas para mim o principal caminho é o caminho da Fé. Gastar com sabedoria as poucas forças remanescentes em vista do bem comum torna  cheia a consistência do viver o dia a dia. A consciência que o sofrimento  é um chamado, duro mas precioso, de Deus, para completar a Redenção que vem de Jesus e que tem um valor ainda maior que o valor da ação a da oração. É claro que isso tudo é dom de Deus, dom do alto, que vem em socorro da nossa  pequenez e da nossa fraqueza  física e psicológica. Vai aqui muito bem um conselho, uma advertência aos mais jovens, aos que estão com toda sua força integral e com saúde boa: o conselho de não perder o tempo, não dar espaço à preguiça, fazer o bem agora, porque amanhã  poderá ser tarde.

sergiobernardoni@gmail.com



quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

SERVIR: um ideal esquecido?


Certamente vocês se lembram de uma imagem de Papa Francisco, numa celebração da Quinta Feira Santa, lavando os pés de um mendigo. Se a imagem do papa fosse substituída pela figura de Jesus, seria fácil lembrar quando Jesus lavou os pés dos discípulos antes de sua paixão e morte ensinando a prática do serviço  e convidando os apóstolos ( e nós todos também!) a imitá-lo. A Igreja, lançando a Campanha da Fraternidade deste ano 2015, renova o convite a realizar, nas comunidades, a mística do serviço. O tema da Campanha é: FRATERNIDADE: IGREJA E SOCIEDADE, e o lema: EU VIM PARA SERVIR!. O tempo forte da Campanha é a Quaresma, mas o seu espírito e sua prática deveriam fermentar a vida dos cristãos e das Comunidades durante a vida inteira. É um tema muito atual e urgentíssimo e é um ataque direto contra a corrupção e a prática generalizada de tirar vantagem em tudo para benefício pessoal esquecendo a sociedade e o bem coletivo. É também uma questão de Fé: todos querem ficar com Deus, mas onde encontra-lo? A resposta é: certamente no amor e no serviço ao próximo. No Evangelho somente uma vez está escrito :” amar a Deus sobre todas as coisas”, mas dezenas de vezes, com parábolas, exortações e exemplos Jesus convida, ou melhor manda, amar e servir ao próximo. Isto para nos libertar da ideia perigosa de amar um Deus situado na fantasia ou no sentimentalismo. E o apóstolo escreve numa carta:” Se você não ama o próximo que você vê, como poderá amar a Deus que não vê?”. A Campanha da Fraternidade terá o seu ponto alto no Domingo de Ramos quando é feita a coleta para ajudar as atividades sociais da igreja. Esta nova mentalidade :”servir ao próximo é se encontrar com Deus”, deverá orientar toda a prática da vida cristã: as reuniões nas casas, as pregações, o dízimo, a vida social e política. Isso significa começar uma vida nova, atitudes novas, e não colocar “remendos nos panos velhos” , como diz o Evangelho.

Sérgio Bernardoni

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Vinho Novo!


Naqueles dias tensos da eleição presidencial, no meio dos debates e  das denúncias generalizadas, eu cheguei a uma certeza: qualquer um dos dois lados ganhasse as eleições seria  necessário um trabalho de refundação da ética social, comercial, politica e religiosa para reconstruir o mundo em que vivemos. Para qualquer lugar eu lançasse os olhos, no alto ou em baixo, para direita ou para esquerda, no campo dos colarinhos brancos ou dos agitadores populares, parecia aparecer sempre, acima dos ideais, o fantasma da corrupção, ou melhor, o costume,  inconscientemente, talvez,  autorizado e auto-justificado , de todo mundo tirar vantagem de tudo: a conhecida “lei de Gerson”. Parece que refazer o mundo seja uma tarefa imensa, impossível . É fácil cair na desesperança, aceitando o que muitos dizem: foi sempre assim, será sempre assim!   Mas para Deus nada é impossível.  Jesus no Evangelho, diante da realidade desanimadora daqueles tempos  diz que podemos colocar “ vinho novo em odres novos”   e nas tentações do deserto (Lucas 4,1-13) nos da o exemplo de como fugir das garras impiedosas do poder, do dinheiro, da ambição. Devemos começar no plano pessoal, olhando para si mesmos e descobrir se as ramificações da corrupção já afundaram em nós as suas raízes e depois juntar um grupinho de pessoas que se propõe de olhar a realidade e em nome de qualquer ideal puro, seja  cultural, seja político, seja comercial ou religioso, começar a “refazer o mundo”. Para alimentar esta vontade, este sonho de reconstruir a sociedade coloco aqui, sob os vossos olhos atentos, alguns pensamentos, sóbrios e claros, de um dos maiores teólogos moralistas dos últimos tempos, Bernard Haring:  “O gênio, o grande artista, o profeta, o santo são os descobridores dos novos valores e das novas oportunidades. Abrem novos horizontes e novos caminhos, infundem nova vida nos valores ainda não percebidos. Não desprezam as inúmeras pessoas silenciosas e humildes, que, dia após dia, mantêm vivos certos valores e formas de sabedoria. Quanto mais intenso é o contato que  mantêm com as pessoas, tanto mais criativo é o impacto que causam na cultura. Mahatma Ghandi e Martin Luther King são exemplos de gênios que souberam ficar perto do povo simples e ser ao mesmo tempo, suficientemente corajosos para convidar este povo a seguir novos caminhos e para aí guia-los”.

Sergio Bernardoni