terça-feira, 14 de abril de 2015

EU TE PERDOO


Contam que Santa Rita, antes de se tornar freira era mãe de dois filhos,  casada com um senhor poderoso e briguento de Cassia, na Itália, ele foi assassinado covardemente pelos seus inimigos, no dia do funeral, publicamente ela perdoou os assassinos do marido. Dias depois, confessou a uma amiga: ”Somente agora consegui perdoar de verdade aqueles assassinos”. E a amiga: ”mas você já não os perdoaste publicamente durante o funeral? “ Aquele perdão - disse Rita - não foi sincero porque perdoei por medo de futuras vinganças contra os meus filhos. Agora estou perdoando de verdade, em nome do Senhor,  e não peço nada de volta”. Examinando nos jornais o teor das palavras de parentes e amigos de pessoas assassinadas se lê com frequência afirmações como: “ Eu perdoo, não quero vingança, mas quero justiça e que o criminoso seja preso e duramente condenado”. Ou: “ Eu os perdoo mas devem ser eles primeiros a pedir este perdão”. Estes sentimentos, aparentemente razoáveis  e justos, escondem, sim, o desejo e a satisfação da vingança .  No Evangelho Jesus é radical: “Não perdoais  sete vezes, mas setenta vezes sete. – Para quem te bate na face esquerda ofereça também a direita – e para os que o crucificaram: - Pai perdoa-lhes porque não sabem aquilo que fazem”.  O perdão sincero e total é a prática evangélica mais difícil. Mesmo quando se trata de perdoar crimes menores: uma calúnia, uma maledicência, uma infidelidade, um roubo de dinheiro ou de coisa de estimação. No grupo do Terço dos homens, que frequento há quatro anos, tenho um companheiro que, na hora dos pedidos de oração, repete quase sempre: “ Peço a vocês e ao Senhor a força de perdoar.  Não consigo perdoar”. Duas semanas atrás, todos ficamos admirados quando disse” Agradeço as vossas orações e a ajuda do Senhor, porque finalmente consegui perdoar”. Custou o seu perdão, mas foi claro que ele tinha entendido o que deveria ser um perdão verdadeiramente cristão. Por isso podemos encerrar estas considerações com a oração de São Francisco: “Louvado seja, meu Senhor, por tosos aqueles que têm a força de perdoar”.

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sexta-feira, 10 de abril de 2015

"AGGIORNAMENTO E MÚSICA POP"


O Papa João XXIII usou a palavra “aggiornamento” durante o Concílio Vaticano II. “Aggiornamento” significa “recolocar em dia” e, neste caso, ”atualizar a Igreja”. Pouco foi feito nestes cinquenta anos depois do Concilio para realizar este “aggiornamento”. Depois da eleição do Papa Francisco o caminho do “aggiornamento”  foi  retomado. Dom Staglianó, bispo de Noto, na Itália, mostra como trilhar este caminho, suscitando admiração na mídia que rebatiza a sua pregação de “homilia cantada”que ganhou notoriedade depois de ser veiculada no Youtube. O bispo celebra a Crisma e usa uma linguagem que os jovens ama. A musica pop. E assim, diante do altar ele canta trechos das músicas “Vuoto a perdere (vazio a perder)”  ,“O essencial” e “Guerreiro” do cantor italiano Mengoni, para esclarecer que podemos nos tornar vazios seguindo a moda do mercado e devemos guerrear para que o essencial preencha a palavra amor de seu conteúdo humano e espiritual, “Eu  uso a linguagem da música moderna para falar  aos jovens de coisas sérias e eles me dizem que escutam com prazer. Então porque não usar um meio que faz “
arder o coração”? Vejam o que diz o Papa Francisco na sua  Exortação apostólica “A alegria do Evangelho - O pregador deve colocar-se na escuta do povo-.

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segunda-feira, 30 de março de 2015

UMA LIÇÃO DE VIDA


Contam que na Idade Média um sábio passou por alguns operários que estavam trabalhando numa construção. O sábio se aproximou de um servente de pedreiro e lhe perguntou: o que você está fazendo? O homem podia não responder: era só olhar para entender  que estava mexendo com areia e cal preparando a massa para os pedreiros. Mas o sábio recebeu uma resposta que o deixou de boquiaberta. O servente respondeu: ”eu estou construindo uma Catedral”. Pensando nas maravilhas que eram as Catedrais da Idade Média certamente foi especial a visão, a coragem e a consciência do servente de pedreiro em fazer um trabalho importante e indispensável para a construção daquela maravilhosa obra, como era importante e indispensável o trabalho dos engenheiros e dos arquitetos. É que na vida, tudo aquilo que a gente faz, mesmo a mais humilde das ações, quando é bem feita, com competência e amor, é importante para a construção da grande Catedral que é o mundo, a sociedade, a humanidade  e o bom Deus dará a mesma recompensa ao garí que cuida do asseio de uma  rua e ao presidente da república que cuida da nação.  A medida da recompensa não será o grau e a posição do cargo, mas a fidelidade, a honestidade e o senso de responsabilidade com que se leva a frente uma tarefa. " Nos ajuda e nos conforto neste sentido o exemplo de tantos homens e mulheres que no silêncio e no escondimento, cada dia renunciam a si mesmos para servir os outros, um parente doente, um idoso sozinho, uma pessoa deficiente, um sem teto.( Palavras de Papa Francisco)"

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terça-feira, 17 de março de 2015

A MÁSCARA CAIU

Nas manifestações de rua do domingo 15 de março uma frase, repetida em várias capitais nas faixas levantadas pela multidão, fez doer o meu coração: “ INTERVENÇÃO MILITAR,  JÁ!”. Foi saudade do tempo da ditatura militar? Acho que não chegou a tanta burrice, mas  deixou claro que o projeto defendido  é pelo domínio da direita, a marginalização dos pobres, contra o fortalecimento  político e econômico das classes subalternas. Reveladora é também a ausência de frases e de gritos pela defesa da Petrobrás, como, ao contrário, tinha acontecido nas manifestações  sindicais da sexta feira anterior. Isso esconde o desejo de ver a Petrobrás privatizada, como aconteceu com a Vale no tempo de F.E.Cardoso. O símbolo da rejeição ficou com a pessoa da Dilma (“fora Dilma!”), mas  a luta da direita não é contra uma pessoa e sim contra o projeto de uma mudança política e social em favor dos pobres. Dilma é certamente mais limpa do que todos os  outros presidentes da era democrática (Sarney, F.E.Cardoso e Lula), mas carrega em si, simbolicamente, todo o peso da corrupção e, agora, também do atual ajuste econômico. O que ficou, então, de positivo, nas manifestações do dia 15? Ficou algo que já sabíamos: a condenação do sistema político e seus representantes e, sobretudo, a condenação da conduta suja dos administradores de todos os campos. Temos que acrescentar somente uma coisa: atenção a não condenar a corrupção somente no andar de cima, porque a Lei de Gerson (tirar vantagem de tudo) é infiltrada também no andar de baixo, incluindo todos nós.

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sexta-feira, 13 de março de 2015

A CONSCIÊNCIA PODE DOER.


Num destes dias fui à lanchonete para comer um salgado com minha esposa. Foram dois salgados e dois cafés. Quando fui pagar percebi  que  a atendente tinha marcado  dois cafés e somente um salgado. Eu vi o erro, pouco depois, e quando o caixa me perguntou se era isso mesmo, falei que sim e paguei. Foi distração?  Foi esperteza? Foi ladroagem? Não sei, talvez um pouco de tudo me ajudou a aplicar a “lei de Gerson: tirar vantagem”. Mas quando voltei em casa a consciência me doeu tanto que não consegui dormir direito, até achar uma solução para reparar o meu erro: voltaria na mesma lanchonete no outro dia e no papel da despesa eu mesmo marcaria “mais um salgado”, sem telo comido, pagando assim o do dia anterior, que eu tinha comido sem pagar. E é o que fiz no dia seguinte. Este tipo de “consciência que dói” é herança da minha educação católica que eu agradeço do profundo do coração. Parece que nem sempre a consciência dói, mesmo quando não se trate de dois ou três reais, mas de milhões, como se vê acontecendo no escândalo da Petrobrás. Pode-se misturar religião com corrupção de menor ou maior importância, sem a consciência doer. E isso pode atingir nós todos, gente comum, se não tiver a delicadeza de consciência para perceber que o que não é nosso “não é nosso”, e se não  aprender a viver com justiça e com a extrema atenção a não prejudicar o próximo. Jesus no Evangelho diz que se na hora de orar ou fazer uma oferta no altar você lembrar que tem alguma dívida com o próximo: “deixa lá a tua oferta e vã reparar primeiro o mal feito ao irmão”(Mt.5,23).

quinta-feira, 5 de março de 2015

AS SOBRAS


Hoje, 05 de Março 2015,três mil famílias do Movimento Sem Terra (MST),começam a deixar, por ordem judicial,  sob os olhos da polícia, a fazenda Santa Mônica, do senador Eunício de Oliveira (PMDB). Eis aqui a crônica do jornal O Popular: “Fim da tarde. Por do sol à vista. Da carroceria de um caminhão, famílias descarregam camas e roupas numa área à beira de BR-060,na altura do km 47, em Alexânia, na região leste de Goiás  É neste local que  elas começam a instalar um novo acampamento, depois de serem retiradas de uma parte da Fazenda Santa Mônica de propriedade do Senador Eunício de Oliveira (PMDB-Ceará), ocupada há cinco meses”.  É terrível o que está acontecendo em nome da lei. A fazenda santa Mônica tem 20 mil hectares, e o senador é dono de outras várias fazendas. Os sem terra não possuem nada e só querem um pedacinho de chão para sustentar a família. A justiça do homem não é a justiça de Deus, mas é por esta  que o senador será julgado. Para entender o tamanho da “injustiça” cometida pela justiça humana, vamos ler no Evangelho de Lucas a parábola do pobre Lázaro:-“  Havia um homem um homem rico que se vestia de púrpura e linho fino e dava banquete todos os dias. E um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, que estava caído à porta do rico. Ele queria matar a fome com as sobras que caiam da mesa do rico. E ainda vinham os cachorros lamber-lhe as feridas. Aconteceu que o pobre morreu, e os anjos om levaram para junto de Abraão. Morreu também o rico e foi enterrado. No inferno em meio aos tormentos, o rico levantou os olhos e viu de longe Abraão, com Lázaro a seu lado. Então o rico gritou:” Pai Abraão tem pena de mim! Manda Lázaro molhar a ponta do dedo para me refrescar  a língua porque este fogo me atormenta”. Mas Abraão respondeu: “Lembre-se, filho: você  recebeu seus bens durante a  vida, enquanto Lázaro recebeu males. Agora porém, ele encontra consolo aqui, e você é atormentado. Além disso há um grande abismo entre nós: por mais que alguém desejasse, nunca poderia passar daqui para junto de vocês, nem daí poderiam atravessar até nós” (Lucas 16.19-26). Para o senador sobra terra e dinheiro, enquanto os lavradores sem terra não recebem nem as migalhas  das suas riquezas. Quem defenderá o senador, quando daqui há poucos anos, se apresentará diante de Deus?

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

A melhor Idade?



Até os meus oitenta anos eu me sentia, não digo jovem, mas cheio de forças e de sonhos. Agora com oitenta e cinco anos e depois de algumas doenças graves me percebo como idoso, velho.  Não acabado, sem esperança, mas com um panorama de vida mais limitado, com uma preocupação principal, que toma o tempo todo: a preocupação pela saúde, o cuidado físico. No médico quase todas as semanas, a mesa empilhada de caixinhas de remédios, as longas sessões de espera nos ambulatórios e uma fraqueza corporal que influencia também o espírito, tirando aquela vontade de construir novidades e melhorar o mundo. Estou percebendo que o número notável de idosos, que aumenta a cada dia, traz problemas  sociais e não somente individuais. É desejável  que se viva longos anos e que isto aconteça com todo mundo, mas com isso algo muda na vida pessoal e na sociedade, inexoravelmente.  Nós dizemos que o idoso se encontra na “melhor idade”. É verdade? Podemos dizer que sim: é uma idade mais calma, com uma visão do mundo mais realista, uma idade de reflexão e contemplação, de benevolência e misericórdia para com os outros, com um maior respeito por parte da sociedade (o idoso, ao menos teoricamente, é sempre “preferencial”). Mas isso tudo é mais complicado quando entra na vida o cansaço e sobre tudo as doenças. Uma comparação não muito bonita é aquela de lidar como com um carro velho: todo dia apresenta um defeito, se  conserta uma peça e estraga a outra. A reação humana é algumas vezes a desesperança e a depressão. Nesta situação qual é o caminho da salvação? Eu não diria que é o único, mas para mim o principal caminho é o caminho da Fé. Gastar com sabedoria as poucas forças remanescentes em vista do bem comum torna  cheia a consistência do viver o dia a dia. A consciência que o sofrimento  é um chamado, duro mas precioso, de Deus, para completar a Redenção que vem de Jesus e que tem um valor ainda maior que o valor da ação a da oração. É claro que isso tudo é dom de Deus, dom do alto, que vem em socorro da nossa  pequenez e da nossa fraqueza  física e psicológica. Vai aqui muito bem um conselho, uma advertência aos mais jovens, aos que estão com toda sua força integral e com saúde boa: o conselho de não perder o tempo, não dar espaço à preguiça, fazer o bem agora, porque amanhã  poderá ser tarde.

sergiobernardoni@gmail.com